A ROSS Intelligence nunca mostrou a seus usuários uma única ementa do Westlaw. A start-up de pesquisa jurídica usou esses resumos curtos de decisões (os chamados headnotes) apenas para treinar sua IA, por meio de cerca de 25 mil memorandos escritos por uma empresa contratada, e seu produto respondia a perguntas com trechos de decisões judiciais. Em 29 de setembro, o Tribunal de Apelações do Terceiro Circuito dos EUA decidiu que isso ainda era violação de direitos autorais, e não fair use (uso legítimo). Foi a primeira vez que um tribunal federal de apelação decidiu se treinar um sistema de IA com material protegido pode ser fair use.
O tribunal frisou o quanto a decisão é restrita: a ferramenta da ROSS recuperava textos existentes, sem gerar nada novo. Mas, para pequenas equipes que criam produtos de IA com dados de terceiros, o raciocínio é um mapa claro de onde está o risco jurídico.
O que a ROSS construiu e onde entraram as ementas
As ementas são os resumos curtos que os editores da Thomson Reuters escrevem para identificar as questões de direito nas decisões judiciais do Westlaw, sua plataforma de pesquisa jurídica. A ROSS quis criar um buscador que respondesse a perguntas jurídicas em linguagem simples com trechos relevantes de decisões existentes, e pretendia que o produto concorresse diretamente com o Westlaw, segundo uma análise do escritório de advocacia Ballard Spahr.
Para treiná-lo, a ROSS contratou uma terceira empresa, a LegalEase, que escreveu cerca de 25 mil memorandos. Cada um combinava uma pergunta jurídica com quatro a seis trechos de decisões, classificados de "ótimo" a "irrelevante", e os redatores usaram ementas do Westlaw para formular muitas das perguntas, como resume a Authors Alliance. Os memorandos foram convertidos em dados legíveis por máquina. Quem usava a ROSS nunca viu uma ementa.
A Thomson Reuters entrou com a ação em maio de 2020. A ROSS Intelligence, que havia captado cerca de US$ 13 milhões, fechou as portas em janeiro de 2021 sob o peso dos custos judiciais, informa o Tech Times, mas o processo sobreviveu à empresa. Em fevereiro de 2025, uma decisão revista de Stephanos Bibas, que atuava por designação no tribunal de Delaware, reverteu uma decisão anterior do caso e concluiu que 2.243 ementas eram originais, foram violadas e não tiveram uso legítimo, enviando as duas questões ao Terceiro Circuito.
Como o tribunal avaliou o fair use
O colegiado formado por Restrepo, Montgomery-Reeves e Bove, com voto redigido por Montgomery-Reeves, decidiu primeiro que as ementas superam o baixo patamar de originalidade exigido pelo direito autoral, porque mostram "alguma centelha criativa" na escolha do que incluir e de como dizer. A decisão descreve a disputa como "nada além de um caso comum de direito autoral".
A lei dos EUA pondera então quatro fatores de fair use. Três foram contra a ROSS:
- Finalidade e natureza do uso. O uso foi altamente comercial e apenas minimamente transformador. O Westlaw usa as ementas para ajudar advogados a identificar o direito aplicável, e a ROSS as usou para ensinar sua IA a identificar trechos relevantes de decisões. A etapa de treinamento não mudou essa finalidade.
- Natureza da obra. Este fator favoreceu levemente a ROSS, porque as ementas resumem decisões judiciais e são mais factuais.
- Quantidade usada. A ROSS copiou ementas inteiras, e cada uma conta como obra própria, então este fator favoreceu a Thomson Reuters.
- Efeito no mercado. O tribunal viu dano em dois mercados: o de pesquisa jurídica, em que a ROSS foi criada como substituta do Westlaw, e o de licenciamento de ementas como dados de treinamento de IA, um mercado que chamou de "em rápido desenvolvimento".
O tribunal também rejeitou a comparação da ROSS com casos antigos que permitiram a cópia intermediária de código de software para fazer produtos funcionarem juntos. Copiar as ementas era o caminho fácil para chegar aos memorandos de treinamento, observa a Ballard Spahr, mas não era necessário para acessar o material desprotegido por baixo delas: as próprias decisões judiciais.
A linha traçada em torno da IA generativa
O trecho mais citado é uma nota de rodapé. Respondendo aos casos de IA generativa, o colegiado escreveu que, "ao contrário dos modelos de IA dos casos Bartz e In re: OpenAI, a plataforma de IA da ROSS não consegue gerar expressão original, e as provas aqui sustentam a conclusão oposta sobre o caráter transformador". A Ballard Spahr lê isso como uma decisão que deixa a questão central intacta: ainda não se decidiu se treinar um modelo generativo com livros ou outras obras expressivas é fair use.
A Authors Alliance, que apresentou um parecer em apoio à ROSS, acha que essa exceção pode ser mais fraca do que parece. Segundo a entidade, boa parte do trabalho da nota de rodapé é feita pela ideia de substituição, e não pela distinção generativa: "a ROSS treinou sua IA com o objetivo de criar um substituto comercial para o Westlaw". A entidade espera que os autores das ações contra IA generativa argumentem que qualquer modelo que concorra no mercado deles está do mesmo lado da linha que a ROSS.
Não faltam casos assim. A Association of American Publishers contabiliza cerca de 150 nos Estados Unidos. E os tribunais ainda não estão alinhados. Joe Cahill, do escritório Baker Botts, lembra que duas decisões de junho de 2025 no Distrito Norte da Califórnia trataram os mercados de licenciamento de forma muito diferente: na decisão de Alsup, um mercado de licenciamento de livros como dados de treinamento "não é um que a Lei de Direitos Autorais autorize os autores a explorar"; na de Chhabria, saber se esse mercado "existe ou tende a se desenvolver é irrelevante".
O que pequenos desenvolvedores podem tirar da decisão
Isto não é aconselhamento jurídico, e as questões sobre IA generativa seguem em aberto. Mas o raciocínio do tribunal dá às equipes que treinam ou ajustam modelos com dados de terceiros seis pontos que vale a pena verificar.
- Saiba qual camada você está copiando. As decisões de que a ROSS precisava eram públicas; as ementas eram a camada editorial da Thomson Reuters por cima delas. "Não há nada que a Thomson Reuters tenha criado que a Ross não pudesse ter criado por conta própria ou contratado a LegalEase para criar sem violar os direitos autorais da Thomson Reuters", escreveu Bibas, segundo o IPWatchdog. Pelo raciocínio do tribunal, fontes primárias e anotações próprias são terreno mais seguro do que os resumos de um concorrente.
- Usar só no treinamento não protege. As ementas nunca chegaram aos usuários da ROSS, e mesmo assim o tribunal concluiu que o uso servia à mesma finalidade que o do Westlaw.
- Criar um substituto da sua fonte é a posição mais arriscada. Tanto o primeiro quanto o quarto fator giraram em torno de a ROSS ter criado um concorrente direto do produto com o qual aprendeu.
- Uma empresa contratada não transfere o risco. A ROSS terceirizou os memorandos para a LegalEase, e a decisão ainda assim foi contra a ROSS.
- Licenças agora são prova. O tribunal tratou o uso que a própria Thomson Reuters faz das ementas para treinar seus produtos de busca com IA como prova de um mercado de licenciamento, e disse que a ausência de licenças a terceiros "não prova que não exista um mercado para isso". A conclusão da Baker Botts é que os termos de licença podem virar prova em processos sobre fair use.
- O processo pode durar mais que a start-up. A ROSS Intelligence fechou em janeiro de 2021. A apelação foi decidida mais de cinco anos depois.
Quem comemorou e quem criticou
As editoras comemoraram. "Os titulares de direitos têm direito a uma participação equitativa no mercado de IA", disse Maria A. Pallante, presidente e CEO da Association of American Publishers, que chamou a decisão de "precedente poderoso".
Os defensores do fair use foram mais críticos. Brandon Butler, que dirige a Re:Create, disse que o raciocínio da decisão de Bibas se apoiou no conceito amplo de concorrência de mercado, e não na substituição real de mercado, o que limita seu alcance: "do jeito que está, esta primeira caminhada judicial pelo labirinto do fair use em IA chegou a um beco sem saída". Dave Hansen, da Authors Alliance, escreveu que o tribunal "erra em duas coisas importantes": esvazia a doutrina da fusão (merger), que impede o direito autoral de proteger uma ideia que só pode ser expressa de poucas formas, e interpreta o fair use contra a cópia não expressiva e não pública que a doutrina sempre protegeu. O tribunal descartou o argumento da fusão com uma analogia: "assim como uma fantasia de banana pode ter inúmeros designs, as ementas também podem ter expressões diferentes".
O que observar a seguir
Fora do Terceiro Circuito, outros tribunais podem escolher se seguem ou não a decisão. A Baker Botts sugere observar três pontos: se uma nova revisão vai enfrentar a questão da circularidade levantada na Califórnia, se o próximo tribunal distrital vai seguir o Terceiro Circuito e se os tribunais vão começar a examinar licenças de dados de treinamento como os tribunais de patentes examinam licenças comparáveis.
Para quem desenvolve, o trabalho imediato é a procedência dos dados: de onde veio cada conjunto, de quem é o trabalho editorial que ele contém e se o produto criado a partir dele concorre com essa fonte. A pergunta vale também para equipes que ajustam modelos de pesos abertos, como o que o MW3.biz cobriu ao noticiar que o Mistral Large 4 vai colocar um trilhão de parâmetros em pesos abertos. Os pesos podem ser abertos; os dados que você acrescenta a eles ainda precisam de um histórico limpo.
Este artigo tem caráter apenas informativo e não constitui aconselhamento jurídico.